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Se mudarmos o início da história, mudamos a história toda

O começo da vida

Na semana passada eu assisti “O Começo da Vida“, documentário de Estela Renner na GNT. Não havia pretensão nenhuma de assistir já que raramente vejo televisão, mas em um desses dias em que o cansaço me venceu e me permiti ficar deitada após o jantar pude contemplar uma riqueza de documentário que nunca imaginei e que recomendo para todas as pessoas, mesmo as que ainda não tem filhos.

Digo sem dúvida que foi um dos melhores filmes que já vi. Me deparei com uma análise profunda e sensível de como a formação das crianças nos primeiros anos de vida é importante para o seu futuro. Da própria criança e porque não dizer, do mundo. O alicerce do futuro da humanidade está na infância. É construindo um ser humano melhor que teremos uma sociedade melhor e mais justa.

“Os primeiros anos são como construir a estrutura de uma casa. Você constrói a estrutura sobre a qual todo o resto se desenvolverá”. Dr Charles A. Nelson III Pediatra Harvard Medical School.

O documentário se baseia em depoimentos de pais, avós, mães e profissionais de diversas áreas ligadas a pedagogia, que falam sobre como o começo da vida de uma criança se desenvolve, e como todos os aspectos cognitivos e neurológicos, além do afeto, são importantes para que ela possa estar preparada para a vida. A atenção, apoio e acolhimento da família moldam o caráter e a personalidade de uma criança.

Achei interessante pois eles não deram uma visão elitista da maternidade/paternidade. Os depoimentos foram de diversos tipos de pessoas, de países diversos, com experiências e situações econômicas diversas. Vimos desde Gisele Bündchen a uma ex-doméstica que mora em uma favela. Ambas tem a mesma visão do que é ser mãe e concordam com a mesma afirmação : “Quero escutar os meus filhos”.

O documentário discute abertamente o papel dos pais, dos avós, das babás e até do profissional da educação.

“Meus filhos não querem saber se sou importante ou se ganho dinheiro. Eles só querem saber se estou presente.”

O documento faz uma reflexão ainda mais profunda do papel da mãe. Há diversas situações onde essa reflexão se dá : há a mãe que reivindica uma carga horária mais baixa para poder passar mais tempo com o filho, outra que parou de trabalhar para se dedicar a ele, passando pela que precisa trabalhar mas tem em sua fiel babá uma forte aliada na criação do seu filho, e a irmã mais velha com menos de dez anos na Índia, que cria os irmãos mais novos sozinha enquanto a mãe está fora, sem qualquer infraestrutura.

Em tempos onde vemos pais matando seus filhos e se matando, seja por loucura ou desespero frente a uma problema sério na vida, fica a reflexão de como será que estamos criando nossos filhos, que adultos eles serão ?

Nem preciso dizer que ver esse documentário me fez refletir na minha própria experiência como mãe, em todos os erros e acertos que tive nestes últimos 17 anos. Fui mãe pela primeira aos 23 anos. Gostaria de poder voltar no tempo para mudar algumas coisas, mas infelizmente não é possível. Muitas vezes o óbvio não é tão fácil de se perceber. Trabalhamos que nem loucos todos os dias pensando em “dar” o melhor para nossos filhos, para atender a uma sociedade onde o “ter” é mais importante que o “ser” e não percebemos que não é um de quarto cheio de brinquedos que nossos filhos precisam. É de atenção, é de amor, é de serem ouvidos e compreendidos, é de tempo conosco, de se sentirem amados e protegidos.

Temos vivenciado uma geração de criança carentes, despreparadas e inseguras para a vida, criadas muitas vezes por empregadas e creches. Crianças que não ficam mais que uma hora com seus pais todos os dias, onde a dita “qualidade de tempo” só pode ser dada de fato nos finais de semana (quando é dada).

“O amor materno é uma parte importante da economia e não é totalmente reconhecido pela sociedade.” Dr James J. Heckman, Prêmio Nobel da Economia University of Chicago.

Outro ponto chave do documentário e que acho pertinente falar é em relação a jornada de trabalho da mulher. Muito se fala em igualdade de gêneros mas nesse contexto, eu acredito que a igualdade não favorece a primeira infância (me julguem!). A sociedade e principalmente as empresas que contratam mulheres, deveriam compreender a aceitar a importância da do papel da mulher na família. Mas como poderiam reconhecer isso ? Permitindo licenças maternidade maiores (na minha concepção deveria ser como em muitos países da Europa, no mínimo 1 ano), compreendendo ausências eventuais e necessárias e porque não, promover flexibilidade de horário ou local de trabalho (homeoffice) ?

Economicamente falando, uma criança com uma personalidade bem formada e bem educada é menos prejuízo para a sociedade, para o estado. É diminuição de violência, de drogas, de problemas psicológicos e até de doenças ! Uma parte que achei interessante do filme foi quando uma das especialistas do documentário diz : “A criança não precisa só de tempo de qualidade. A criança precisa de quantidade”. Se você dissesse ao seu chefe que só iria trabalhar 2 horas por dia mas com total qualidade, ele iria aceitar ????

“A relação afetiva de coração para coração, é que vai estruturar aquele indivíduo”. Dr Vera Cordeiro,Médica e Fundadora da Fundação Saúde Criança.

Para quem não viu “O Começo da Vida”, recomendo fortemente. O filme está disponível no Netflix e provável que no GNT play.

Para saber mais sobre o filme : http://ocomecodavida.com.br/

 

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